A iniciativa da Meta contra o racismo por meio de emojis é positiva no início da Copa do Mundo

Por Julie Owono, Membro do Comitê de Supervisão 

Hoje marca a abertura da Copa do Mundo da FIFA de 2026. Com as partidas acontecendo nos Estados Unidos, México e Canadá ao longo das próximas cinco semanas, o torneio oferece uma oportunidade de celebrar tudo o que um grande evento esportivo global pode proporcionar: a união de pessoas ao redor do mundo para admirar talentos individuais e trabalho em equipe, a participação em rivalidades saudáveis entre amigos e familiares e o orgulho por países, culturas e identidades nacionais. 

Mas, ao mesmo tempo em que celebramos o futebol, não podemos ignorar o lado mais sombrio presente na Copa do Mundo e em outros grandes eventos esportivos. Abusos racistas e discursos de ódio nas redes sociais continuam atingindo atletas, torcedores e outros usuários. Aqueles que publicam esse tipo de conteúdo sabem que suas ações são erradas e contrárias às regras, por isso procuram contornar os sistemas de detecção utilizando linguagem codificada, ou “algospeak” (linguagem algorítmica), incluindo o uso de emojis de maneira ofensiva.  

Em 10 de fevereiro de 2026, o Comitê de Supervisão recomendou que a Meta aperfeiçoasse seus processos de revisão, tanto automatizada quanto humana, para considerar de forma abrangente o uso de “algospeak” na disseminação de mensagens de ódio. A recomendação surgiu com base em dois casos em que emojis de macaco foram utilizados para comparar pessoas negras a animais.  

Em um desses casos, um usuário brasileiro publicou no Facebook um vídeo curto contendo uma cena do filme Se Beber, Não Case!, em que dois personagens, dublados em português, disputam a posse de um macaco. O texto inserido no vídeo identifica os personagens como os clubes de futebol espanhóis “Barcelona” e “Real Madrid”, além de incluir outro texto sobreposto que faz referência a meninos que vêm se destacando no futebol brasileiro. 

A publicação brasileira ocorreu em um contexto de racismo sistêmico e de hostilidade amplamente documentados no futebol, especialmente contra jogadores negros. Um exemplo é Vinicius Junior, atleta do Real Madrid, que já foi alvo de diversos episódios de racismo, incluindo comparações com macacos. A situação atingiu tal gravidade que o estado do Rio de Janeiro aprovou, em 2023, a chamada “Lei Vinicius Junior”, destinada a combater o racismo em eventos esportivos. 

Mas, ao mesmo tempo em que celebramos o futebol, não podemos ignorar o lado mais sombrio presente na Copa do Mundo e em outros grandes eventos esportivos.

Na Europa, vários episódios de grande repercussão envolvendo ataques racistas contra jogadores negros, tanto nos estádios quanto nas redes sociais, foram amplamente divulgados na Espanha, Itália, França e Inglaterra. Os atletas vêm adotando uma postura de tolerância zero diante desses abusos. Vinicius Junior, com o apoio de seu companheiro de equipe no Real Madrid, Kylian Mbappé, recusou-se a continuar jogando em protesto durante uma partida da Liga dos Campeões. Da mesma forma, jogadores do Milan deixaram o campo em protesto contra cânticos racistas direcionados ao goleiro da equipe.  

Apesar disso, pesquisas demonstram que ondas de abusos continuam ocorrendo após as partidas. Um estudo realizado pela Professional Footballers’ Association, sindicato dos jogadores profissionais da Inglaterra e do País de Gales, em parceria com a empresa de ciência de dados Signify, mostrou que, em 2020, mais de 3.000 tweets enviados a determinados jogadores continham conteúdo explicitamente abusivo. Desses, 56% tinham caráter racista, e 29% das publicações racistas utilizavam emojis. Já um relatório de 2025 da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) apontou que 33% das publicações denunciadas à Meta, TikTok e X por compartilhamento de conteúdo abusivo durante as finais de clubes da UEFA foram classificadas como racistas. 

Na decisão do Comitê, foram feitas três recomendações à Meta:  

  • Auditoria e atualização dos dados de treinamento: o Comitê recomendou que a Meta realizasse uma auditoria dos dados utilizados para treinar os sistemas automatizados responsáveis pela aplicação da política de conduta de ódio. Também afirmamos que a empresa deveria atualizar regularmente esses dados, adicionando exemplos de conteúdo com emojis em todos os idiomas, usos de emojis que violem a política e novos exemplos de utilização ofensiva desses símbolos. 
  • Harmonização dos esforços para interromper campanhas de ódio: defendemos que a Meta integrasse os esforços já existentes para interromper, de forma proativa, campanhas de ódio abrangidas pelas políticas de Conduta de Ódio e Bullying e Assédio. Isso inclui, por exemplo, ataques diretos que utilizem comparações desumanizantes com animais e mecanismos de proteção contra assédio em massa. Uma coordenação mais eficiente entre essas políticas proporcionaria maior proteção às pessoas que não são citadas diretamente, mas que continuam sendo alvos implícitos dessas campanhas, como atletas de alto nível e outros usuários das plataformas da Meta. 
  • Monitoramento ativo de conteúdo durante grandes eventos esportivos: recomendamos que as ações preventivas e os mecanismos de resposta rápida da Meta passassem a incluir o monitoramento ativo de conteúdos com emojis que incentivem a discriminação imediatamente antes, durante e após grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo da FIFA e os Jogos Olímpicos. 

A Meta é obrigada a responder publicamente às recomendações do Comitê em até 60 dias. Ficamos satisfeitos ao verificar que a empresa informou estar implementando integralmente duas das três recomendações: a auditoria e atualização dos dados de treinamento e o monitoramento ativo de conteúdo odioso baseado em emojis durante grandes eventos esportivos. 

Sobre os dados de treinamento, a Meta informou que os conjuntos de dados utilizados para treinar algoritmos de detecção de violações relacionadas à conduta odiosa já incluem emojis em diversos idiomas, bem como exemplos de seu uso ofensivo. Segundo a empresa, esses dados são atualizados diariamente para permanecerem “atuais e abrangentes”. Durante eventos como a Copa do Mundo, a Meta afirma que adotará medidas direcionadas para reduzir a exposição dos usuários a conteúdos que violem suas políticas, incluindo aqueles que utilizam emojis. A empresa também se comprometeu a compartilhar informações adicionais sobre os dados de treinamento de seus classificadores em uma futura atualização confidencial ao Comitê. 

A Meta também está implementando integralmente nossa recomendação relacionada ao monitoramento ativo de conteúdo odioso em torno de grandes eventos esportivos. Em sua resposta, a empresa declarou que apoia regularmente iniciativas urgentes voltadas à redução e mitigação de danos durante eventos esportivos de grande repercussão, como a Copa do Mundo. Entre essas medidas estão grupos de trabalho dedicados à identificação e proteção das contas autênticas de atletas, federações e outros participantes relevantes. 

Quanto à recomendação para harmonizar os esforços existentes no combate a campanhas de assédio em massa, a Meta afirmou que esse trabalho já é realizado por meio de ações de aplicação dos padrões da comunidade relativos ao Bullying e Assédio e Conduta de Ódio. Em nossa avaliação, a falta de coordenação entre essas políticas cria uma lacuna na aplicação das regras para pessoas que são alvo de campanhas de ódio, mas que não são mencionados explicitamente nas publicações. Nessas situações, a Meta recorre às regras contra discurso de ódio. Entretanto, entendemos que essas regras, isoladamente, não são suficientes, motivo pelo qual recomendamos a harmonização entre as duas políticas. As soluções apresentadas pela empresa não correspondem ao objetivo pretendido pelo Comitê com essa recomendação. 

Ao implementar duas das três recomendações estabelecidas na decisão, as ações da Meta são medidas bem-vindas e necessárias para combater o racismo online no contexto de eventos esportivos. O Comitê de Supervisão continuará chamando atenção para a diferença entre as regras existentes contra o racismo nas redes sociais e a realidade preocupante observada durante grandes partidas. Ainda há muito trabalho a ser feito por todos nós para enfrentar esse problema crescente e prejudicial. 

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